sábado, 27 de junho de 2026

SAÚDE MENTAL

 


Psicose: quando a realidade deixa de ser compartilhada

A clínica da psicose nos convida, talvez mais do que qualquer outra experiência clínica, a abandonar nossas certezas. Diante do delírio, da alucinação ou de fenômenos que desafiam a lógica comum, a primeira tentação é perguntar: o que há de errado com esse sujeito? A psicanálise lacaniana propõe inverter a questão: como esse sujeito conseguiu construir uma forma possível de existir diante daquilo que lhe escapou simbolicamente?

Essa mudança de perspectiva desloca profundamente nossa posição como clínicos. O interesse deixa de recair apenas sobre o sintoma e passa a dirigir-se à lógica que sustenta aquela experiência singular.

A psicose como estrutura

Para Lacan, a psicose não é definida pela intensidade dos sintomas, nem pela gravidade do sofrimento, mas pela maneira como o sujeito foi constituído na linguagem.

Enquanto a neurose se organiza em torno do recalque, a psicose encontra seu fundamento naquilo que Lacan denominou foraclusão do Nome-do-Pai. Não se trata da ausência do pai real, tampouco de uma falha educativa. Trata-se da não inscrição de um significante fundamental responsável por introduzir a lei simbólica e possibilitar determinadas operações psíquicas.

Essa diferença estrutural modifica profundamente a forma como o sujeito se relaciona com o desejo, com o corpo, com a linguagem e com o outro.

Durante muitos anos, a psiquiatria tomou o delírio como o centro da psicose. A psicanálise propõe outro caminho: o delírio não é o início da doença, mas frequentemente uma resposta construída pelo sujeito diante de uma ruptura na realidade simbólica.

O delírio como trabalho psíquico

Essa talvez seja uma das ideias mais fecundas herdadas de Freud e desenvolvidas por Lacan.

Quando o sujeito delira, não está simplesmente "perdendo contato com a realidade". Muitas vezes, está realizando um intenso trabalho de reconstrução do mundo. O delírio procura dar sentido ao que, para aquele sujeito, tornou-se insuportavelmente sem sentido.

Aquilo que, do lado de fora, aparece como desorganização, pode representar, do lado de dentro da experiência subjetiva, uma tentativa de reorganização.

É precisamente por isso que confrontar diretamente o delírio costuma produzir mais sofrimento do que alívio. Ao desmontar precipitadamente essa construção, corre-se o risco de retirar do sujeito um dos poucos recursos que encontrou para sustentar sua existência.

A clínica da escuta

Essa compreensão modifica radicalmente a direção do tratamento.

O analista não ocupa o lugar daquele que corrige a realidade do paciente, mas daquele que procura compreender como essa realidade foi construída.

Na clínica da psicose, interpretar menos pode significar escutar melhor.

Isso não implica passividade. Exige, ao contrário, uma presença clínica extremamente rigorosa, capaz de reconhecer os pequenos pontos de estabilidade que o próprio sujeito inventou ao longo de sua história.

Às vezes, essa estabilidade é encontrada na escrita. Em outras, no trabalho, na arte, na religião, em um vínculo afetivo, em um objeto específico ou mesmo em um ritual cotidiano. Lacan chamou essas invenções de formas de suplência: recursos singulares que permitem ao sujeito fazer frente ao excesso do Real.

O papel do analista não é substituir essas construções, mas ajudá-las a ganhar consistência.

A psicose na contemporaneidade

As formas clássicas da psicose, marcadas por delírios grandiosos e alucinações exuberantes, continuam existindo. Entretanto, muitos autores contemporâneos observam apresentações muito mais discretas.

São sujeitos que frequentemente trabalham, estudam, constituem famílias e mantêm relativa inserção social, embora convivam com uma fragilidade silenciosa na organização de sua experiência subjetiva.

Nesses casos, a clínica exige ainda mais delicadeza. Não se trata de procurar sintomas espetaculares, mas de escutar pequenas rupturas na relação com o corpo, com a identidade, com os vínculos e com a linguagem.

A estabilidade, nesses casos, costuma depender de soluções extremamente singulares.

A ética da clínica das psicoses

Talvez a maior contribuição da psicanálise não seja oferecer novas técnicas, mas uma nova posição ética.

Não se trata de normalizar o sujeito nem de adaptá-lo a um ideal de funcionamento psíquico.

Trata-se de reconhecer que cada sujeito constrói, à sua maneira, uma resposta possível para aquilo que o habita.

A clínica deixa, então, de perguntar "como eliminar o sintoma?" para interrogar: o que esse sintoma sustenta? O que ele impede que desmorone?

Responder a essas perguntas exige renunciar às soluções universais. Cada caso inventa sua própria lógica. Cada sujeito encontra seu modo singular de habitar o mundo.

É justamente nesse ponto que a psicanálise permanece atual. Em uma época marcada pela rápida classificação dos sofrimentos psíquicos e pela expectativa de respostas imediatas, ela insiste em algo essencial: antes do diagnóstico, existe um sujeito; antes da doença, existe uma história; e antes do sintoma, existe uma tentativa, muitas vezes silenciosa, de continuar existindo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Cleide Pereira Monteiro / Edilene Freire de Queiroz – A clínica psicanalítica das psicoses em instituições de saúde  mental.

Tiago Iwasawa Neves / Andreza Silva dos Santos – A direção da cura na clínica lacaniana das psicoses.

Roberto Calazans / Rosane Zétola Lustoza – A medicalização do psíquico: o uso do termo  psicose nos Manuais Diagnósticos Estatísticos.

Bernardo Tanis – A psicanálise e sua clínicas.

Marcio Peter – A psicose como paradigma da psicanálise.

Raissa Ellen  Pereira da Silva / Emilse Terezinha Naves / Elzilaine Domingues Mendes – A psicose e sua clínica. A construção de um ato.

Rogério Paes Henriques – A psicose na contemporaneidade e seus novos sintomas.

Lúcia Grossi dos Santos / Juliana Meirelles Motta / Maria Cristina Bechelany Dutra – Acompanhamento terapêutico e clínica  das psicoses.

 

 


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